Depoimento

Trabalho como Arte Educadora na Casa Mais Vida desde junho de 2014, para mim foi um grande desafio e está sendo um grande aprendizado. No início pensei que não fosse conseguir dar conta da missão, afinal tive pouca experiência com o artesanato, meu foco principal sempre foi a arte plástica. Mesmo assim, não desanimei, pois quando vi os moradores da casa fiquei simplesmente encantada! Senti naquele momento e sinto até hoje um amor e um carinho muito grande por todos, e através deste amor consigo vencer as dificuldades e os desafios que surgem no decorrer do trabalho. O tempo foi passando e fomos nos conhecendo melhor, adquirindo a confiança e o respeito de todos.

A proposta do trabalho é manter os moradores ativos durante a maior parte do tempo, por isso são elaboradas diversas oficinas e dinâmicas de grupo, além do alongamento que é feito todas as manhãs antes da caminhada.

Como são pessoas com deficiência física e mental, aos poucos fui aprendendo a lidar com o comportamento de cada um, comecei a compreender que todos tem limites e adaptei as atividades de acordo com a necessidade de cada um. Ou seja, uma moradora que tem problema de coordenação motora na mão não tem força para segurar uma tesoura e cortar tecido, um morador com problema na vista não consegue costurar, pois terá dificuldade para fazer fuxico. Alguns adoram usar tinta para pintar tela, papel ou tecido, tem pessoas que não gostam, porque não querem sujar as mãos, mesmo sabendo que a tinta sai na água. Alguns tem afinidade em fazer rolinhos de jornal. O importante é respeitar o limite de cada um para manter a harmonia e a paz no grupo.

Além das oficinas, os moradores colaboram na elaboração das lembrancinhas que são feitas mensalmente para serem distribuídas às pessoas que visitam a casa, ajudam a fazer os objetos que decoram a estante da sala e também na decoração da casa nas datas comemorativas. Usamos muitos materiais reciclados para mostrar a todos que tudo se aproveita e se transforma em arte.

Quando o tempo está bom as atividades são feitas fora da casa no Galpão das Artes onde tem bastante espaço e trabalhamos com tintas, pincéis, tecidos, cola, tesouras, linhas, agulhas, papéis, jornais, revistas e gibis e criamos muitas coisas, como os fuxicos que servem para decorar mesinhas e os desenhos com recorte e colagem que são colocados na sala de informática. Também gostam muito de jogar dominó e baralho.

Quando o tempo está frio e com chuva fazemos as atividades na sala através de dinâmicas de grupo, onde são feitas brincadeiras de passa anel, batata quente, imitar bichos, brincadeiras com bolas e bexigas e leitura de livros onde procuro interagir com os moradores através da história contada mostrando as figuras e fazendo perguntas.

Enquanto trabalho procuro transmitir alegria e entusiasmo, dou risada e converso muito com todos e , através destas conversas, ouço o relato da história de vida de alguns. E são relatos de dor , de angústia, de sofrimento, de vidas sofridas e que não tem muita esperança. Então a minha missão é dar um pouco de alegria a estas pessoas. Como Arte Educadora trabalhar a arte e a emoção, dar incentivo e ânimo para aprenderem a lidar com as suas angústias e mostrar que através da arte isso é possível. Pois a arte é uma terapia, um momento único e existem diversas maneiras seja no artesanato, no canto, na música ou na dança, o corpo e a mente libertam suas emoções.

Durante o tempo que estou trabalhando na Casa Mais Vida como Arte Educadora, já pude perceber várias mudanças nos moradores com as atividades e dinâmicas realizadas. Relatam que gostam das oficinas porque participam, conversam e dão muitas risadas. A Roseli teve uma melhora notável, participa sempre das atividades e a cada trabalho me surpreende, tem uma criação e imaginação maravilhosa. Em todos percebi alguma mudança e para melhor, nem todos tem a mesma habilidade, não são todos que sabem ler e escrever e fazer continhas, tem alguns que só fazem bolinhas, outras adoram desenhar e pintar e este é o jeito que encontram de mostrar seus sentimentos. Em cada um existe um artista e a ser revelado.

A oficina da Colcha de Retalhos foi um dos maiores desafios, tanto para mim, quanto para eles. A proposta foi pensar em um momento que marcou a vida de cada um, para desenhar em um pequeno pedaço de tecido e depois pintar. Ficaram ansiosos e diziam não ter tido nenhum momento bom que aconteceu na vida. Então eu disse a todos que o fato de estarmos vivos já era uma grande vitória. Não era para sair lindo e perfeito, mais sim, um pedacinho de suas vidas, que seria registrado através dos traços e cores. Várias histórias seriam deixadas ali naqueles tecidos. Cada um com a sua própria história de vida. Logo estavam animados e adoraram o resultado final. Colocamos a colcha de retalhos na sala de informática. E eu adorei fazer este trabalho, foi muito produtivo e criativo, os desenhos e pinturas me surpreenderam! Gratidão a Deus por ter colocado estes moradores no meu caminho, a cada dia um novo aprendizado, um novo ensinamento, uma nova lição de vida. Amor, carinho e muita paciência, é assim que realizo o meu trabalho na Casa.

Alzenir Maria de Souza

Arte Educadora

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