Depoimento

Amarildo Costa – 55 anos

“Histórias legal na vida, tive muitas! Sou uma pessoa assim, eu sempre gostei de ser livre, nunca gostei de coisa trancada, não sei por que, acho que, se tem reencarnação, no passado eu fui um presidiário porque, é, o pessoal fala: nossa, o Amarildo tem tanto tempo de voo que eu vou te falar! Vivo saindo voando. Mas é assim, nasci em Minas Gerais, vim com 3 anos de idade para o Rio de Janeiro, morei até uns 5, 6 anos lá e depois, em definitivo, Santo André, cidade que eu amo pra caramba, que me adotou, que eu gosto muito. Não desprezando minhas origens, pois gosto muito de Minas Gerais. Eu só fui uma vez na cidade que eu nasci, que é Manhumirim, nome indígena, chama-se “rio pequeno” - Manhu (rio) e mirim (pequeno).

Interessante é que quando eu fui visitar parente lá, o pessoal tinha que mostrar a prova que eu era mineiro, porque eu não tinha o sotaque de mineiro, porque eu adotei o linguajar do paulista, me acostumei com ele. Aí quando eu ia burli com eles, eles não acreditavam. “É, você nasceu em São Paulo, porque você não fala ‘carrne’, você fala ‘carne’” (sotaque de interior). É o jeito, eu me acostumei com isso. E eu fiquei um pouquinho de tempo no Rio de Janeiro, né... Tem até uma história interessante no Rio de Janeiro. Meu pai era caminhoneiro e nós tínhamos um quintal imenso, então tinha criação de galinha, tal. Então, meu, nós somos em 10 irmãos, eram 11, morreu um... Agora já morreram os outros, mas depois de muitos anos. De nascença, com 3 meses de vida, foi a Estelinha que não vingou direito. E, interessante que eu fiquei até uns 15 anos de idade sem comer carne de galinha, até que na escola me deram uma canja, e eu falei, nossa, que canja gostosa, não sei o que é que tem. Aí um menino: nossa, essa canja de galinha é uma delícia! Aí eu: mas eu não como galinha! Aí eu quis saber o porquê, que até então, apagou da minha memória isso. Aí a mãe clareou minhas ideias, né. Contou a história que foi: nós tínhamos muita galinha no quintal, então, quando criança, a gente brincava com os animais. Eu não sou normal, que criança brinca com cachorro, eu brincava com galinha (rs)! Aí eu pus, como eu era pequenininho, eu não conseguia correr atrás das outras galinhas e tinha uma manca, que era a ponto de eu catar pra brincar com ela. Então apelidei de “Mantecola”. Aí meu pai chegou de viagem, caminhoneiro, papai chegou e falou: vamô fazê (coisa de mineiro), polenta com frango. E foram catar quem? A Mantecola, que ela era a que menos corria. Aí a minha irmã, a Débora, ela pôs a... olha a situação: ela é baixinha, ela pôs a língua pra fora, a galinha entre as perna, e, com a faca cega, serrando o pescoço da galinha. E eu vendo. Quando cortou, o pescoço prum lado e a galinha saiu pulando sem pescoço, se debatendo pro outro. Não... é bem terror mesmo, é bem coisa de terrorista aquilo! Aí meu pai chegou, tal, comemos, lambemo os dedo, tal, e ele falou : nossa (ele sabia que todo mundo tinha uma galinha preferida que tinha um nome, tal) nossa, que galinha cês mataram? Eu falei “minha Mantecola, pai!” Ele fez meu irmão correr até umas hora e ele tinha que voltar pra casa. Voltou, ela amarrou num tronco lá e deu uma bela duma surra. E eu fiquei olhando, todo feliz! (risos).

Depois, com 15 anos que eu vim a saber disso, porque que eu não gostava. Cê sabe que a mente da gente tem coisas que faz questão de esquecer, né? Ainda mais quando criança, tem um certo trauma, é uma coisa imensa, né? Então eu...Apagou, depois vim a lembrar, falei: nossa, que coisa boa! Vou comer, esquece o trauma! (risos)

Amarildo Costa

Morador Casa Mais Vida Santo André

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